O ENSINO DE FLAUTA DOCE NA ESCOLA JOAQUIM ANDRÉ CAVALCANTI, PARA ADOLESCENTES COM DEFICIÊNCIAS OCULTAS E TRANSTORNOS DO NEURODESENVOLVIMENTO
Palavras-chave:
educação musical, flauta doce, educação inclusiva, Pernambuco, Transtorno do desenvolvimentoResumo
Há uma crescente discussão sobre a prática do ensino com ênfase em Educação Especial, bem como o uso de metodologias específicas na formação dos professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE), que atendem este público no Brasil. Leis que fortaleceram a legitimidade do ensino inclusivo foram criadas, desde a Declaração de Salamanca, que trata a Educação como um direito de todos. Estas leis têm atendido e criado ambientes educacionais de ensino mais respeitosos dentro das necessidades e especificidades dos alunos com deficiência, até o Decreto de nº 11.370, de 1º de janeiro de 2023, que revogou o de nº 10.502, de 30 de setembro de 2020, onde instituía a Política Nacional de Educação Especial. Logo, o professor do AEE está constantemente exposto as mudanças da atualidade, especialmente no período pós-pandemia. A partir dessa observação, algumas questões podem ser consideradas objetos de investigação após aplicação de métodos qualitativos de ensino, a exemplo do projeto e estudo a seguir. Entre elas, leva-se em consideração à prática do ensino de flauta doce, enfocando as diversas abordagens para a transmissão de conhecimento a alunos com Deficiências Ocultas, Transtorno do Espectro Autista, Deficiência Intelectual, Microcefalia e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. O contexto da pesquisa acontece no Atendimento Educacional Especializado (AEE) da Escola Joaquim André Cavalcanti, na Cidade de Petrolina, Pernambuco. Os objetivos com as aulas de música foram: compreender o comportamento e analisar as atitudes de autocontrole e engajamento em grupo e sua percepção, observando o processamento e estímulos sensoriais; absolver os conteúdos e o tempo de resposta para execução da flauta doce; verificar a retenção de conhecimento em curto e longo prazo, observar a rapidez com que os alunos respondem ao estimulo solicitado e; considerar cada deficiência e/ou transtorno do neurodesenvolvimento, assim como os impactos destas intervenções, na interação social e comportamental dos alunos participantes (ao todo 14 alunos com necessidades específicas). Nesse processo foi perceptível a importância da música no universo inclusivo e as possibilidades de avanços das aulas na área cognitiva. Como observado por Swanwick (2003, p. 94), “qualquer modelo de avaliação válido e confiável precisa levar em conta duas dimensões: o que os alunos estão fazendo e o que eles estão aprendendo”. Tomando como base esta afirmação, é possível avaliar os processos subjetivos no ensino dentro da sala multifuncional e comum, entendendo a avaliação como instrumento de direção para analises dos fatos existentes no meio de atuação, utilizando as diretrizes fornecidas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o professor licenciado. A metodologia baseou-se nos conceitos do método Da Capo, desenvolvido pelo professor Joel Barbosa, e o método Suzuki. O método Da Capo propõe um ensino sequenciado e estruturado, enfatizando a prática em conjunto e a repetição contínua. Por outro lado, o método Suzuki valoriza a interação familiar e, dentro deste aspecto, reuniões foram realizadas para a busca do entendimento metodológico e encontros em grupo com os familiares, além de um encontro individual com os pais e/ou responsáveis legais para supervisão dos alunos na execução da flauta. Dentro disso, algumas pesquisas têm nos mostrado, a exemplo de Bianchessi (2020), que o relacionamento com práticas pedagógicas através do “saber” por muitas vezes empíricas, acontecem de diferentes formas nas diversas multiplicidades de espaços educacionais. Neste sentido, faz-se necessário à construção de um conjunto organizado de saberes e linguagens vivenciadas por momentos aplicados dentro da realidade da Educação Especial e do seu ensino para o uso de práticas pedagógicas comprovadas assistivas¹ com os alunos e familiares envolvidos no trabalho. Tomando como base esta afirmação, esse método de ensino envolvia os familiares em todas as etapas do processo de aprendizado, desde a escuta ativa e apreciativa até a execução das primeiras peças. Essa abordagem oferece o suporte necessário para que os familiares possam acompanhar o desenvolvimento do aluno em casa com uma prática supervisionada, seguida de escuta e apreciação qualitativa no processo de construção e aprendizagem da flauta, com incentivo emocional oferecendo engajamento nas atividades, mantendo a motivação e autoestima do aluno. Assim sendo, o projeto desenvolvido contempla os níveis de educação/ensino, pesquisa e extensão, dado que caminha em direção a sala multifuncional do Atendimento Educacional Especializado (AEE), e a apuração dos processos avaliativos e metodológicos, levando a sociedade e classe acadêmica a futuras reflexões que podem auxiliar no progresso e qualidade do ensino na região. Por fim, será realizada uma análise documental dos planos de aulas e evolução dos respectivos alunos participantes do projeto. Ludke e André (1986) afirmam que a análise documental é um instrumento indispensável à pesquisa qualitativa, complementando informações obtidas ou desvelando aspectos novos. Quanto à observação direta, esta é uma excelente oportunidade de contato com o real, pois com a observação a pesquisa pode ser situada, orientada, os sujeitos podem ser reconhecidos e juízos podem ser emitidos sobre elas (LAVILLE; DIONNE, 1999, p. 176). As aulas foram ofertadas na sala multifuncional da escola, iniciando no mês de maio de 2023 e seguirão até o mês de dezembro de 2024, incorporando exercícios práticos de aquecimento, leitura de partitura, jogos interativos musicais e exposição da melodia executada, com duração de 1 hora para cada encontro, além de reforço no contraturno escolar. Nessas aulas, foi possível a prática do instrumento com obras utilizando as notas sol, lá, si e, depois de dois meses de atendimento, a inserção das notas dó e ré. Hoje soma-se 7 obras ao repertório. Todas as estratégias pedagógicas foram adaptadas para que houvéssemos um melhor envolvimento no atendimento com os recursos auditivos e visuais, facilitando a compreensão das posições e duração das notas em relação à melodia, desenvolvendo a percepção musical e ampliando o repertório. Os resultados obtidos indicam o progresso contínuo dos oito alunos com TEA Nível de suporte I e II e avanços significativos com os três alunos portadores do TDAH. Outrossim, foi perceptível uma maior dificuldade com três alunos que possuem DI - Deficiência Intelectual e Microcefalia com Deficiência Intelectual, onde foi possível constatar lapsos de memória sequenciados relacionados à música e demais conteúdos gerais em diferentes bimestres. Cabe aqui ressaltar uma melhora significativa no rendimento e interação social escolar de todos os alunos participantes do projeto em que a música foi utilizada como ferramenta de inclusão social e desenvolvimento cognitivo. Essa experiência propõe que o uso combinado e conceito dos métodos aplicados ao instrumento flauta doce acaba sendo eficaz, promovendo a inclusão dos alunos do AEE com transtornos do neurodesenvolvimento, em que a participação da família acaba sendo a chave para o sucesso desta atividade. A verificação comportamental e uso de tecnologia e ferramentas assistivas neste processo, nos apresentam uma razoável parcela de dados para futuras análises, mudanças de estratégias nas atividades adaptadas e tomada de decisões rápidas para um melhor atendimento na Rede Estadual de Ensino.
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