INCLUSÃO E MÚSICA:

o trabalho com a musicografia braile na Secretaria de Acessibilidade (SEACE) da Universidade Federal do Cariri (UFCA)

Autores

  • Samuel Gomes de Melo UNIVERSIDADE FEDERAL DO CARIRI
  • Bruna Lorony da Silva Guedes UNIVERSIDADE FEDERAL DO CARIRI
  • Ana Karolina Santos Loreto UNIVERSIDADE FEDERAL DO CARIRI

Palavras-chave:

educação musical inclusiva, adaptação de materiais, musicografia braille, secretaria de acessibilidade da universidade federal do cariri

Resumo

No Brasil, o ingresso de pessoas com deficiência visual no ensino público superior vem crescendo ano a ano. Para atender essas pessoas, visando sua devida inclusão e permanência, as universidades vêm adotando diferentes abordagens, no que se refere ao trabalho de adaptação de materiais acessíveis. De acordo com Melo e Rodrigues (2019, p. 249-251), no ano de 2019, diante o ingresso do primeiro discente com cegueira total no curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Cariri (UFCA), a Secretaria de Acessibilidade (SEACE) abriu vaga para um bolsista do curso em questão e contratou uma braillista da prefeitura municipal da cidade de Juazeiro do Norte, para juntos iniciarem seus ofícios, associados à edição e produção de materiais bibliográficos acessíveis e transcrição de partituras em tinta para a notação musical em braille. Como objetivo geral, o presente trabalho pretende averiguar as atividades relativas à musicografia braille exercidas pela Secretaria de Acessibilidade (SEACE) da Universidade Federal do Cariri (UFCA), entre os anos de 2019 e 2022. Como objetivos específicos, intencionamos: 1) verificar as práticas adotadas pelos servidores para realização das suas atribuições; 2) fazer um levantamento das obras bibliográficas que servem de suporte e 3) elencar pontos positivos e/ou negativos destes processos. Portanto, para melhor entender o objeto de estudo, utilizamos a abordagem qualitativa. Para Goldenberg (2004, p. 53), os “[...] dados qualitativos consistem em descrições detalhadas de situações com o objetivo de compreender os indivíduos em seus próprios termos.” Quanto à natureza, qualificamos como participante. Conforme Severino (2007, p. 120), é “[...] aquela em que o pesquisador, para realizar a observação dos fenômenos, compartilha a vivência dos sujeitos pesquisados, participando, de forma sistemática e permanente, ao longo do tempo [...].” Preliminarmente, foi percebido que no primeiro semestre, para conhecer a musicografia braille, iniciou-se uma pesquisa bibliográfica que versasse sobre o tema. Como apoio, foram encontrados os materiais: “Manual Internacional de Musicografia Braille” (2004), disponibilizado em arquivo digital no portal do MEC, e “Introdução à Musicografia Braille” (2003), livro físico da autora Dolores Tomé. Para a produção das partituras em braille, foi fundamental o uso de um software brasileiro para computador conhecido como Musibraille. Este aplicativo possibilita ao usuário fazer transcrições sem ter conhecimento profundo sobre o Sistema Braille e os sinais musicográficos. Em paralelo a este contexto, as demandas solicitadas pelos professores, via e-mail, eram desenvolvidas de acordo com a compreensão que se ia tendo dos assuntos explorados. Vale ressaltar que uma das metas centrais era entregar as produções ao aluno cego no mesmo momento em que esses eram encaminhados aos discentes videntes, pelos docentes. A principal dificuldade para preparação das peças musicais se concentrava no melhor entendimento da organização/colocação/distribuição correta dos sinais musicográficos em braille, no tocante às formas de transcrição. A posteriori, no segundo semestre, os desafios se apresentavam semelhantes ao primeiro, nesta ocasião, enfatizados nos novos símbolos que se encontravam nas demais partituras requisitadas, como por exemplo, sinais de acorde, articulação, dinâmicas, repetição, etc. Em 2020, em decorrência da pandemia de COVID-19, a UFCA criou o Período Letivo Especial. As tarefas com a musicografia braille neste cenário foram produzidas por um novo bolsista, dado que o de 2019 se graduou nesta mesma época. Cabe destacar que a formação inicial sobre musicografia do novo colaborador foi dada pelo anterior. Isto foi essencial para que o foco saísse da teoria convergisse à prática, propriamente. Entretanto, mesmo tendo ele conhecimento prévio sobre o conteúdo para trabalhar com as peças, ainda se faziam necessárias novas buscas, o que tardava o envio destas ao estudante. No ano de 2021, a SEACE celebrou junto ao seu primeiro bolsista do curso de Música/UFCA um termo de adesão ao trabalho voluntário, voltado para as mesmas atividades. Além disso, contratou um novo. O empenho conjunto proporcionou um serviço satisfatório, no decorrer da temporada letiva, considerando conhecimentos adquiridos nas experiências predecessoras. Neste ano de 2022, os esforços, uma vez mais, estão se dando para formar - o quanto antes - a mais recém-chegada, em relação à musicografia, a fim de ser entregue os pedidos dos docentes no tempo determinado. Diferentemente dos outros anos, estes processos, tanto do ensino-aprendizagem quanto da prática, vem se tornando incomplexos. O retorno das aulas presenciais e o contato diário e direto entre supervisora, bolsista e voluntário, em um mesmo ambiente, tem propiciado uma troca de conhecimento e experiências notáveis, diferentemente das interações no modelo remoto. Nesta perspectiva, conclui-se que a produção das partituras em braille e a entrega destes ao discente dependia não somente da formação inicial dos bolsistas, mas também do envio - com antecedência - pelos professores. Pelo contexto pandêmico, toda ação sobre a temática, entre os anos 2020 e 2021, aconteceu de forma remota, o que fez com que algumas obras fossem entregues fora dos prazos. No que tange às literaturas encontradas e ao programa Musibraille, pontuamos que foram primordiais para norteamento do trabalho. Um novo material, publicado este ano, fruto da dissertação de mestrado do Jonatas Souza e Silva, titulado “A musicografia braille e o desenho universal para a aprendizagem: uma proposta didática/pedagógica” (2022), se tornou também referência para aprofundamento da musicografia. Diante do exposto, foi percebido que mesmo com as dificuldades, as ações anuais, em grupo, conseguiram atingir seu propósito de fornecer conteúdos acessíveis ao estudante supracitado. 

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Manual Internacional da Musicografia Braille. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2004.

GOLDENBERG, Mirian. A arte de pesquisar: como fazer pesquisa. Rio de Janeiro: Record, 2004.

MELO, Samuel Gomes de; RODRIGUES, Rodolfo. ACESSIBILIDADE E FORMAÇÃO DOCENTE: um curso de Licenciatura em Música diante a primeira pessoa com deficiência visual ingressa. In: Encontro sobre Música e Inclusão, 7., 2019, Natal. Anais do VII Encontro sobre Música e Inclusão. Natal: EDUFRN, 2019. p. 249-251.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico. 23. ed. São Paulo: Cortez, 2007.

SILVA, Jonatas Souza e. A musicografia braille e o desenho universal para a aprendizagem: uma proposta didática/pedagógica. 2022. Dissertação (Mestrado profissional em artes) - Instituto Federal do Ceará, Campus Fortaleza, Fortaleza, 2022.

TOMÉ, Dolores. Introdução à musicografia Braille. São Paulo: Global, 2003.

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Publicado

20-12-2022

Como Citar

Melo, S. G. de ., Guedes, B. L. da S., & Loreto, A. K. S. (2022). INCLUSÃO E MÚSICA:: o trabalho com a musicografia braile na Secretaria de Acessibilidade (SEACE) da Universidade Federal do Cariri (UFCA). Anais Do Encontro Sobre Música E Inclusão, 24–27. Recuperado de https://ojs.musica.ufrn.br/emi/article/view/84

Edição

Seção

Práticas, recursos e tecnologias na Educação Inclusiva